Noite fria
Não era muito tarde quando bateram à
porta da casa de Rebeca. Uma voz também chamava: - oh de casa, tem alguém aí?
Ela ficou apavorada, pois morava
sozinha e tinha medo de abrir a porta para quem quer que fosse. Temia o
desconhecido.
Devia ser umas nove horas da noite ou
talvez um pouco mais. Fazia frio. Ela já estava se preparando para tomar um chá
e ir se deitar. Como o chá antes de deitar me faz bem, dizia ela. Mesmo
no verão tomava o chá bem quentinho. Podia ser de camomila ou de erva
cidreira, que a faziam relaxar e dormir bem. De manhã, no lugar do café,
gostava de tomar o chá verde para lhe dar a disposição necessária para o seu
dia de trabalho.
A porta da casa de Rebeca ficava rente
à calçada, não tinha muro nem grade e a pessoa insistia em bater na porta. O
fecho da porta era de metal em forma de aro o e o barulho ressoava dentro da
casa.
A voz também insistia, - oh de casa,
tem alguém aí?
Rebeca pensou em ligar para a polícia,
mas ao mesmo tempo pensava, e se fosse algum conhecido? Um amigo? Um primo?
Certamente a voz era masculina!
Quem viria me visitar à noite sem
avisar? Ficava ela indagando para si mesma!
A porta não tinha visor para ver o lado
de fora e ela não reconhecia a voz. Ela havia se mudado para esta casa não
fazia muito tempo e ainda não tinha tido tempo de mandar colocar o olho mágico.
Abrir a porta significava dar de cara com o que poderia ser o total
desconhecido. Será?
O homem insistia e não ia embora.
Finalmente Rebeca criou coragem e perguntou: quem está aí, o que quer?
O homem respondeu com sua voz rouca: -
tenho fome e frio, preciso da ajuda da senhora para um pedaço de pão e um
cobertor.
Como o homem falou em um tom educado,
ela correu para o quarto e segurou um cobertor, a voz lhe parecera conhecida,
mas parou de repente e pensava: e se o homem for um delinquente? E se ele me
agarrar e forçar a sua entrada para dentro da minha casa? Será que eu deveria
chamar a polícia? Ela estava atônita.
Rebeca era uma jovem solteira de uns
vinte e seis anos, bonita, pele clara, olhos claros, ruiva, cabelos cacheados,
poderia chamar a atenção do desconhecido. Foi para a cozinha
e apressadamente começou a preparar um sanduiche. Estava trêmula, mas
não era de frio. Preparou também outros dois chás, já que o seu chá já
tinha esfriado desde a chegada do desconhecido.
Encheu-se de coragem, voltou para a
sala e disse perto da porta: espere um pouco. – espero sim, tenho fome e frio,
repetiu ele.
Rebeca pensou muito e num minuto passou
um longo filme pelos seus pensamentos: Tio Joãzinho, será ele? A voz rouca é um
pouco parecida. Há quanto tempo Tio Joãzinho desapareceu? Há quanto tempo não o
vejo? Será que já faz 20 vinte anos que ele se foi? Lembro-me que eu era bem
pequena... será que eu ainda me lembraria da voz dele? Deixou a família em
desespero, sumiu! Lembro-me também que foram procurar nos hospitais, nos
necrotérios, nas igrejas, e como a cidade era muito grande não foi encontrado.
A família até hoje, vez em quando, faz
buscas também nos albergues, perguntando aos moradores de rua, nas comunidades
e nada!
E o tic tac do relógio da parede da
sala parecia martelar nos pensamentos de Rebeca focados no saudoso Tio. Era
também seu Padrinho e com quem ela parecia, principalmente nos lindos olhos
azuis. Tio Joãzinho, irmão mais novo de sua mãe, enlouquecera com a morte do
filho primogênito de dois anos, que morreu engasgado. Pelo que Rebeca se lembrava
parecia ter sido isto o que provocou o desaparecimento dele.
Tragédia em cima de tragédia!
Quanta tristeza para a Tia Nadir,
esposa e mãe, sem filho e também sem seu porto seguro, seu marido! Não
conseguiu resistir por muito tempo e caiu doente. Os irmãos cuidaram dela até o
fim da vida dela, e os irmãos dela são os que ainda buscam o Tio Joãzinho pela
cidade.
Seria ele, o Tio Joãozinho, a bater em
minha porta nesta noite fria? Assim pensava Rebeca. Colocou o que pode no
sanduiche, salada, bife, ovos, molhos, e levou à porta em uma bandeja com o chá
quentinho. Trazia também pendurado no braço um cobertor que lhe fora pedido.
Criou coragem, abriu a porta e imaginou
que diante dela poderia estar o Tio Joãzinho, mas seria ele? Era um senhor de
olhos claros também, cabelos e barbas longos e brancos, na verdade amarelados,
desarranjados, em desalinho. Simples no trajar, mas polido ao falar.
Rebeca desviou o olhar, e sem fitar o
homem perguntou: Tio Joãzinho?
Boa noite senhora, disse ele, sou o
Antônio, mas eu conheci um Joãozinho, que era muito meu amigo, mas pegou
pneumonia e morreu numa noite fria e chuvosa. Ele perdeu um filho pequeno e daí
em diante passou a ter vida errante. Ficou meio enlouquecido, deixou a família
e viveu sua vida só, com poucos amigos. Era um homem de fé, mas se culpava pela
morte do filho, e era calado e muito triste.
Rebeca com os olhos rasos d’ água
agradeceu a Deus por ter tido coragem de atender à porta e ao pedido daquele
homem, e de lhe dar de comer e de beber, e de lhe dar um cobertor. Ele
veio bater à sua porta naquela noite fria e a fez saber um pouco sobre o
seu querido e desaparecido Tio, seu Padrinho! Parecia uma missão a dele, do
Senhor Antônio, uma missão cumprida para com o amigo falecido! Restava agora a
ela contar sobre a morte do Tio aos seus familiares, para que enfim cessassem
as buscas e passassem a rezar por sua alma!
Rita Reis - dezembro de 2020
ATENÇÃO:Obrigada pela sua compreensão e pelo seu tempo!
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